O desfile ocorreu na 57ª edição da Casa de Criadores (CdC) no Centro Cultural São Paulo (CCSP), consolidando-se como um espaço de destaque para a moda autoral e inclusiva.
“Tenho usado a moda como agente de transformação na @apegofashion e ter este projeto escolhido pra trazer luz a história de Saara Baartman foi muito significativo.”, afirma Adriana Carvalho, estilista que participou do concurso de moda inclusiva e teve três looks classificados para a passarela.
A nova coleção Vênus Sara nasce como um manifesto. Inspirada na história de Sara Baartman, mulher negra sul-africana que teve seu corpo exposto, objetificado e ridicularizado na Europa do século XIX, a coleção revisita um dos capítulos mais cruéis da história, e o transforma em força, beleza e liberdade.
Sara foi conhecida pejorativamente como a “Vênus Hotentote”. Seu corpo, com formas exuberantes, foi exibido como espetáculo e tratado como algo exótico e não humano. Em sua dor, encontramos um símbolo potente de resistência, é dessa potência que surge a Vênus que Sara.
Nesta coleção, as formas são celebração e protesto. As silhuetas dialogam com o corpo curvo, real, plural. Elementos estruturais remetem às gaiolas e amarras impostas àquela mulher, aqui estas amarras se dissolvem, se transformam, se libertam. As modelagens modulares e transformáveis, traduzem o gesto de devolver ao corpo o que lhe foi negado: o direito de se mover, de escolher, de existir em sua plenitude!
Tecidos fluidos encontram bases rígidas, em uma tensão intencional entre opressão e emancipação. As cores transitam entre tons terrosos, cru e metálicos, evocando tanto a ancestralidade quanto a reconstrução de uma nova Vênus, a Vênus que pertence a si mesma.
Vênus Sara não é apenas uma coleção de roupas. É um grito pela liberdade de existir através do vestir. É a reescrita de uma história.
É a celebração do corpo negro, gordo, livre e de todas as Sáras que vieram depois, e se tornaram a própria cura.

Legenda da Foto: das três modelos posando com as peças da coleção Vênus Sara em pé.
Ficha técnica de cada look da coleção da marca Apego Fashion
Look 1. O vestido é confeccionado em Tecido de linho misto cru, de tom bege e aparência rústica, como fibra natural ainda próxima de sua origem. A peça tem formato reto e alongado, sem mangas no corpo principal, o que evidencia sua simplicidade artesanal, apesar da complexidade de sua modelagem.

Legenda da imagem: Modelo El Terto na passarela com a peça criada pela estilista Adriana Carvalho.
Na parte frontal, três faixas verticais, tecidos reaproveitado dos recortes desta coleção,
( retecido) em marrom queimado correm paralelas, lembrando trilhas de terra sobre um campo claro. Entre elas, um zíper se esconde, integrado ao desenho com discrição.
O colarinho é amplo e estruturado, formando duas pontas largas que repousam soltas sobre o peito, como asas tranquilas, unido ao corpo de vestido com zíper permitindo o uso desta gola de varias maneiras ( unido ao vestido com a ponta solta, unido ao vestido com com a ponta presa do lado oposto com botão de imã, ou sem a gola.
Na altura dos quadris, dois grandes bolsos frontais se pão de etam para fora, também em tecido cru,com a mesma aplicação dos retalhos ( retecido) com zíperes marrom escuros marcando o contorno, ao destacado do corpo do vestido, se torna uma pequena bolsa destacáveis, trazendo um caráter utilitário à peça.
Pensado para propor liberdade ao corpo feminino, que historicamente tem sua estética atrelada ao uso de bolsa, esta peça permite que a mulher escolha usar ou não bolsas, pensando na facilidade do caminhar de pessoas com deficiência estes bolsos trazem a segurança em ter seus pertences junto ao corpo.
Do lado direito, preso ao ombro, um detalhe contrastante chama atenção: uma manga volumosa e franzida, feita em retalhos de tecido marrom queimado, criando um balão suave que termina em outro tecido, agora em tom terracota, dobrado para dentro. Essa única manga dá ao vestido uma assimetria intencional, quase escultórica, como se a peça guardasse um segredo ou uma história interrompida no ar. Permite ser usada junto ao vestido, presa ao bolso ou bolsa através de botão de imã, como colar, ou sem este detalhe.
No centro costa do vestido uma faixa com tiras de tecido marrom e bete se estende da gola a barra.
O conjunto transmite a sensação de algo feito à mão, experimental e orgânico , um vestido que mistura rusticidade, utilidade e poesia na mesma costura.
Look 2 – Vestido em tecido em linho misto cru de cor telha, com comprimento até o meio da coxa.
As mangas são curtas e levemente bufantes, finalizadas com punhos dobrados em bege pálido, criando um contraste suave com o tom terroso da peça.As mangas são removíveis com zíper destacável bege, coberto por uma vista tbm bege permite ser usado com 2 ou 1 manga, ou ainda sem nenhuma.

Legenda da imagem: Modelo Cristaine Mayworm no backstage com o look 2 da Apego Fashion para a passarela da Casa de Criadores.
Na parte frontal, o vestido apresenta duas faixas verticais que percorrem toda a extensão da peça. Cada faixa de retecido feito com tiras das sobras da própria coleção, é composta por uma banda central em marrom claro, ladeada por duas bandas em bege, formando um desenho simétrico e contínuo. Entre essas faixas, um zíper vertical bege, serve como fechamento principal.
O bolso possuem botão de imã, com o mesmo detalhes em retecidos do vestido e uma pequena corrente, permitindo o uso tbm como bolsa.
A peça possui uma gola alta e macia, também na cor telha, que cai delicadamente para frente, sugerindo movimento. A gola também pode ser removida permitindo o uso com a gola fecha com botão de imã lateral, com a gola e a ponta pra frente, ou sem a gola.
O conjunto combina referências rústicas e artesanais, com linhas retas e tons naturais que evocam simplicidade, textura e calor. Não há detalhes nas costas.
Look 3 – Blusa sem mangas, feita em tecido de linho misto cru, com dois blocos de cor contrastantes.
A parte central da frente é em um tom bege claro, formando um painel que se afunila suavemente em direção à barra.

Legenda da imagem: Modelo Ana Maria posa com o look três, ela segura com a mão direita a aba frontal da saia para o lado.
Nas laterais, o tecido é marrom-queimado, criando um desenho geométrico que molda a silhueta.
A blusa possui uma abertura frontal com zíper marrom escuro, levemente inclinado para o lado direito. Permitindo facilidade para o vestir de pessoas com mobilidade reduzida nós membros superiores, dores crônicas como fibromialgia, volumes do corpo gordo.
A gola é rente ao pescoço, com um pequeno recorte central, e o acabamento das mangas é simples, sem detalhes adicionais.
Saia
A saia é feita em tecido de linho misto cru em tom terroso, semelhante ao marrom telha, com caimento leve e aparência maleável. A saia está aberta na parte frontal, revelando um zíper central vertical em cor marron escura, que vai da cintura até a altura do gancho. Abaixo do zíper há uma abertura frontal e um pouco mais abaixo, na região da frente, observa-se algumas pregas, e na cintura algumas preguinhas suaves próxima ao cós, dando leve volume ao tecido.
As pernas da saia apresentam amplitude, formando um efeito parecido com o de uma pantalona, com o tecido caindo solto para baixo. Com botão de imã a parte das pregas pode ser alterada de lugar deixando a abertura mais fechada, isto permite melhor vestibilidade, troca de fralda, deslocamento, ou banheiro em caso de pessoas que fazem uso de cadeiras de rodas.
Ainda pensando na live dade e estilo a saia possui um bolso destacável frontal, com botão de imã, bege com detalhes em retecidos nas cores bege e marrom queimado.
Obrigada @huacaseixas_original @joiaspapoulas_bijus pelos acessórios
Obrigada @danisouzafoto por fazer estes registros incríveis!
Sobre a Estilista – Adriana Carvalho
Adriana Carvalho é mulher preta, gorda, periférica e atualmente Pessoa com Deficiência. Nascida e criada na periferia de São Paulo, atua como estilista, fotógrafa e empreendedora a frente da Apego Fashion, marca independente de moda plus size sustentável que transforma resíduos em peças autorais, multifuncionais e inclusivas. @nanadridrika

Legenda: Modelos posando no pitch de fotógrafos na passarela com a estilista da marca.
Seu trabalho parte do reconhecimento da gordofobia como uma forma de exclusão violenta e encontra na moda uma ferramenta da valorização da vida, e combate as opressões. Além de desenvolver roupas que celebram corpos diversos, Adriana também conduz ações sociais de educação para jovens e crianças sobre consumo consciente e sustentabilidade, e por meio da fotografia, estimula mulheres a ressignificarem sua autoimagem. Engajada no ativismo negro e gordo, faz da moda um espaço de afeto, resistência e transformação.
Fotos e vídeos disponíveis no Instagram: https://www.instagram.com/apegofashion/

